A menina Suzane Manoela da Silva Souza, de 10 anos, deve estar agora brincando com anjos e muito cuidada por Deus, infinitamente melhor que sua passagem pela vida. Pena que a tristeza de seus pais e familiares não vai ter fim, tamanha falta que ela já está fazendo.
rnDistantes da dor da família, pensando assim, talvez possamos nos confortar e conformar com tamanha tragédia que é assistir a morte de mais uma menininha simples da periferia.
rnTemos que aprender a dar repercussão, discussão e sentir mais indignação e não preferir omissão como se fosse quase normal, um incidente, a morte de uma menina num córrego onde escorre dejetos de esgoto, a merda de parte da cidade.
rnÀs vezes somos hipócritas e estúpidos e parece que sentimos mais a morte de uma pessoa mais abastada material e financeiramente – aliás, por culpa também nossa, da mídia, que dá mais destaque como se hierarquizássemos o ser humano até na hora da morte por importância e medição sócio-econômica.
rnSomos quase todos os dias hipócritas e tudo está tão banalizado que no quesito corrupção e escândalo quase acreditamos ser natural ou, conformistas, acreditamos que não tem jeito.
rnMas à parte tudo isso e mais alguns detalhes, vou ficar na morte de Suzane na semana que passou e nas lições que devem ficar para o conjunto da sociedade de Marília, principalmente à administração pública municipal e demais autoridades que lidam com a fiscalização dos direitos individuais e coletivos do cidadão.
rnA tragédia de Suzane é o caso mais recente. Tem também o absurdo que a Rádio Dirceu AM e o jornal Diário divulgaram em agosto, do desleixo e abandono na rua Bento de Abreu Filho, no Jardim Santa Antonieta.
rnPara refrescar nossa curta memória: em outubro de 2004, o marido de dona Fraudísia Rocha Ferreira Barbosa morreu vítima de atropelamento por ciclista.
rnQual a culpa do poder público? O ciclista desviou de buraco na rua Bento de Abreu Filho, que na época, como denunciava a associação de moradores, tinha absurdos 512 buracos. Pasme, quase todos os buracos continuam lá, fazendo vítimas de trânsito e causando estragos em veículos.
rnMas são tantos e tantos casos que por conta da deficiência de banco de dados do jornal e do próprio poder público e por falha de minha memória, nem dá para listar os demais descalabros. Mas são muitos e vou ficar então só na tragédia do momento e evitar algum exagero.
rnSó nesse ano poderia relacionar as mortes de pelo menos três pessoas em Marília por quase comprovada falta de atendimento do sistema de saúde pública – outro desleixo, desmando, descaminho, enfim, ?des? de tudo que é mazela de quem é agente público.
rnÉ muito pouco apenas chorarmos a morte de uma menina de 10 anos. Não podemos mais ficar omissos e de braços cruzados como se fosse impossível evitar tragédias. Elas podem ser evitadas. Só não há prevenção lógica contra a força da natureza e olha que assim mesmo basta respeitar o meio ambiente que ele não vai castigar o homem.
rnSensibilize-se nesse domingo ao ler de novo essa coluna. Você, pai, pense em seu filho, avô em seu neto, tio em seu sobrinho, adolescente e jovem em seus irmãos ou amigos e ao pensar em seres tão importantes em sua vida, faça um segundo que seja de oração e reflexão pela menina Suzane.
rnA morte da menina revolta e mostra decepção contra a administração pública pela Comunidade Mãe da Divina Providência, batismo até emblemático para afastar o estigma popular de ser taxada de favela.
rnÉ simples. Famílias menos favorecidas ou excluídas socialmente, vão sendo empurradas para as periferias de todas as cidades e Marília não é diferente, mas se é aqui que moramos, temos que nos defender e gritar contra a falta de opção e políticas públicas em defesa dessas comunidades.
rnA cambada da politicalha não perde a oportunidade de se aproveitar do menos informado como as famílias de baixa e quase nenhuma renda, mas na hora de dar o retorno, resgatar a dignidade, é aquela ladainha, aquele fingimento.
rnA comunidade que deveria a partir de agora eleger a menina Suzane como marco de uma reviravolta não pode continuar tão abandonada e esquecida por Marília e seus agentes públicos, como ocorre há mais de 12 anos.
rnO que mais irrita é que mesmo depois da tragédia, um único setor, secretaria, assessor, ou sabe-se lá que outra boa alma da administração Mário Bulgareli foi até o local fazer inspeção, levantamento, verificar necessidade de adoção de alguma medida emergencial. Lamentável, mas bem o perfil de como Marília anda sendo tratada há muitos anos.
rnAquele fim de cidade à beira do que sobrou do bosteiro que é o antigo Córrego do Pombo (canalizado entre a avenida Santo Antonio e a rodovia SP-294) tem uma comunidade simples e humilde, mas que obrigatoriamente não pode continuar esquecida e ignorada.
rnO bairro ganhou maior notoriedade a custo muito alto, que é a morte de Suzane, mas o certo é que a Rádio Dirceu AM e o Jornal Diário estão na vanguarda em defesa da cidadania há muito tempo e denunciando o desmazelo mais gritante em algumas regiões da cidade mais sensíveis pela inexistência de toda e qualquer infra-estrutura e condições mínimas de ocupação.
rnO que o poder público tem feito? Não preciso nem responder. Basta verificar o atoleiro que a cidade anda em algumas áreas não só nesses um ano e oito meses de governo Mário Bulgareli, até agora o puro e simples continuismo da malfadada administração de oito anos de Abelardo Camarinha.
rnNão são eles culpados também da morte da menina Suzane? São sim. Não exclusivos, mas quando o homem público não cumpre com suas responsabilidades, com planos e projetos é sinal que ele concorre para que ocorram tragédias, mesmo de forma indireta.
rnAgora, muito pior para a cidade é quando faltam recursos para atender toda a crescente demanda de serviços públicos e ao mesmo tempo o minguado cofre público é fruto de desvios, superfaturamento, corrupção, enriquecimento ilícito, como ocorreu nos oito anos de Camarinha e como muito bem demonstram hoje a enxurrada catastrófica de mais de 160 processos cíveis e criminais que tramitam contra ele e boa parte de sua patotaem todos os tribunais de Justiça, assim como nas garras de promotores e procuradores de Justiça – estaduais e federais.
rnPassada mais essa bandalheira e mentira que virou o debate político partidário nessas eleições, espera-se que o prefeito Mário Bulgareli adote postura mínima de governante e passe a dar atenção a Marília.
rnBulgareli ainda tem mais de dois anos de governo se nenhum desastre político e jurídico acontecer e não interessa que compromissos políticos ele tenha, ele tem é a responsabilidade, dever e obrigação de administrar Marília. E sua caneta tem cofres por onde passam mais de R$ 300 milhões.
rnIsso mesmo, mais de trezentos milhões de reais de nossos impostos, nosso suor, nosso trabalho, nossa riqueza, nossos esforços, às vezes, ao custo de nossas lágrimas e até sangue.
rnAgora, o que irrita e decepciona é a inoperância e ineficiência. Não vou nem culpar Bulgareli, que pode dizer não sabe de nada. Ou que talvez não manda nada, ou então a assessoria que herdou quer vê-lo no fundo do poço. Ou está sendo sabotado e traído.
rnDos mais de 700 cargos em comissão no mar de mordomia e festival de gente sem concurso, Bulgareli parece que tem de confiança mesmo meia dúzia de gatos pingados que não conseguem se desvencilhar das amarras e garras da malfadada escola abelardiana de maus costumes.
rnNinguém se prestou a mínima tarefa de dar atenção àquela comunidade. Vivo repetindo. Pelo menos respeito e transparência é essencial. Dar atenção e atendimento ao cidadão, munícipe e contribuinte é obrigação básica.
rnQuem trabalha estava tão ocupado que não teve tempo de fazer mínima visita que fosse? Sim. Mais de 500 agentes públicos comissionados nem poderiam fazer nada, pois não seria sua área de atuação.
rnMas, e a parte da cambada, lambe botas, cupinchada, que quase nada produz, que nada assessora, que apenas perambula meia horinha pelos corredores da Prefeitura e depois vai cuidar da vida ou fazer politicagem naquela mamata descarada e deslavada?
rnO pessoal da boquinha, que vive da mamata das gordas tetas dessa Viúva municipal, há quase dez anos faz da Prefeitura e da politicalha uma maneira indecente de ganhar a vida numa boa.
rnEssa parte podre herdada por Bulgareli teria que ser expurgada, desinfetada da Prefeitura antes que seja tarde e o prefeito vai sentir o peso da responsabilidade pois é ele quem deve tomar providência. Se tivesse mais gente de qualidade ao lado, seguramente poderia ter identidade própria, em que pese não ter condições sabe-se lá porque de livrar-se do maquiavelismo.
rnNa outra ponta, o que desilude mesmo é o fato dos instrumentos de mobilização da comunidade estarem tão ignorados pelo poder público e sem estrutura de reagir.
rnTanto assim que no caso do bairro onde estava morando a menina Suzane, uma das líderes comunitárias, Vera Lúcia Novaes, de sua simplicidade, mas aguerrida, ainda tentava articular moradores e teve o apoio da Pastoral da Criança da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
rnEla está cansada de ir de um lado para o outro atrás dos Camarinha, dos Bulgareli, dos vereadores, de secretários, uma e outra eminência parda, sem que nada aconteça, sabe a quanto tempo? Mais de 10 anos. Dez longos anos. Lastimável.
rnAgora é esperar a outra parte do poder público, que seria o Poder Judiciário, que no entanto precisa da ação do Ministério Público. Os promotores ainda que estejam consumidos em tantas investigações por conta e causa de tantos e tantos desmandos, precisa fazer mais um esforço epegar de jeito em cima dessa Prefeitura para que não seja necessária outra tragédia naquela ou em qualquer outra região da cidade.
rnAfinal, naquele fim de mundo para nós, existe um pedacinho de terra importante para centenas de famílias. Lá estão pelo menos 400 crianças e adolescentes com idade máxima de 15 anos que vivem na comunidade em situação de alto risco não só pela contaminação do córrego pelo dejeto de esgoto que correa céu aberto, mas pela falta de ligações de água, de asfalto ou áreas de lazer, entre outras mínimas condições de vida.