Neste mês de setembro, encerra-se a Semana Nacional de Trânsito, e também anuncia os 10 anos de vigência do Código de Trânsito Brasileiro (CTB): uma flor (que já deveria ter se tornado um jardim) em meio a um calvário recheado por 35 mil mortes e 400 mil feridos vitimados anualmente por acidentes no trânsito, mal guardados por um cofre o qual vazam 28 bilhões de reais de gastos anuais que, convertidos na idade do CTB, totalizam 280 bilhões de reais.
Poderia divagar imensamente nesse nobre espaço jornalístico, realizando mais dados e análises sobre essa contabilidade trágica da miséria humana, além de ainda poder apresentar resultados de pesquisas, legislações, tipologia de infrações e punições, pirotecnias de imagens de impacto, arranjos estatísticos sociais e econômicos, enfim, poderia brincar de traduzir essa sanha por informações construídas sobre a desgraça humana. Não o farei. Quero tratar da construção humana.
Nossa querida Marília, atuando contra tudo isso e através de “quixotescos” homens, mulheres e crianças de bem, realizou o 4º Congresso Estadual de Desenvolvimento e Educação no Trânsito. Leiam bem: DESENVOLVIMENTO E EDUCAÇÃO NO TRÂNSITO. Quem e quantos dão bola de verdade, para a Educação nesse país? E para a Educação no Trânsito especificamente? Nesse caso o “quantum” torna-se inimaginável… Mas no UNIVEM, local onde o Congresso se realizou por iniciativa da EMDURB e da Prefeitura Municipal, estiveram presentes 424 congressistas. Em sua maioria “doidos”, é claro (com o perdão da palavra e respeito pleno a meus pares congressistas). Inclusive os palestrantes, como eu.
E olhem que o conjunto de palestrantes incluiu um Juiz, um Tenente, um Consultor/ Pesquisador e um Professor. “Doidos” porque desejam chamar atenção para a insanidade e a endemia social que afetam a população brasileira no âmbito do trânsito. Mas somos mais “doidos” ainda, porque realizamos esse Congresso no Estado cuja capital é a 3ª maior metrópole do mundo e o terceiro maior mercado consumidor de automotores e seus correlatos.
No caso do Brasil, trata-se do Estado de maior consumo de veículos, rodovias, radares, semáforos, obras patrocinadas por empreiteiras etc. É sobre isso que o Congresso de Marília fez ecoar sua voz. Mas o fez por um caminho especial e radical: através da EDUCAÇÃO. E aí, passamos a nos movimentar num TRÂNSITO cujo TRÁFEGO exige uma certa modalidade de TRANSPORTE e SINALIZAÇÃO.
Tentarei brevemente traduzir: Educação tem sua origem no latim “Ex-Docere” que significa “partir para fora”, externalizar o que o homem carrega dentro de si. Numa síntese, podemos empregar o termo compreendendo a capacidade que o homem tem em sair de si próprio (do individualismo egoísta) e participar da sociedade, da comunidade, da vivência do mundo, particularmente da vivência entre pessoas e seres vivos. Participar da vida plena.
Mas para participarmos da vida plena, o ser humano desenvolve algumas etapas historicamente comprovadas: é o caso da divisão entre infância e juventude. A infância é a etapa da descoberta, do desenvolvimento e “pré-domínio” das suas potencialidades, de seus reflexos, de sua gênese, enfim, é a etapa da APRENDIZAGEM, principalmente da aprendizagem escolarizada, da educação dirigida. Tendo a próxima etapa como referência, a infância seria o “vir-a-ser”.
A juventude seria o esgotamento esperado da infância, ou seja, a fase de amadurecimento pleno das faculdades, dos reflexos, de sua gênese e agora, do domínio de suas potencialidades e aprendizado. O ser completou-se, edificou-se. O processo de aprendizagem, nesta etapa, torna-se extremamente difícil mesmo para aquelas que se enraízam no modelo escolarizado, devido aos vícios e virtudes já cristalizados e “entronizados” no ser humano, durante a etapa da infância. A infância é, pois, a “quarentena” da juventude, da fase adulta.
De outro modo, a juventude torna-se a consolidação e manifestação da aprendizagem: já entendemos a importância de aprender e já atingimos nossos valores, reflexos e capacidades em sua plenitude. Já conhecemos nossos riscos, já convivemos com nossas sinalizações, já sabemos nos transportar sozinhos e já sabemos escolher nossos trajetos.
Mas então por que assassinamos tanta gente no complexo transporte, tráfego, trânsito e sinalização? Simplesmente porque não aprendemos a conviver com essa “vivência”. Não tivemos infância para essa descoberta. Não portamos educação para essa aprendizagem. Não escolarizamos esses conteúdos. O que nos restou então? Morticídio no trânsito. Cidades não escolarizadas no trânsito, nos transportes, no tráfego e na sinalização. Sobrou a transgressão, ato máximo de quem não sabe lidar com seus limites (sinalizados ou não) e obstáculos.
Lembre-se que você, caro leitor, em relação a outras pessoas, também é um obstáculo em movimento. Somos um cruzamento contínuo de “desescolarizados”, potenciais transgressores (muitos promoverão assassinatos), independentemente do grau de consciência que operamos. Contra tudo isso, só a Educação. Educação na infância. Educação escolarizada de trânsito na infância. Educação escolarizada de trânsito na infância de forma constante e obrigatória nas matrizes curriculares da educação básica. Mas aí, aí caímos na burocracia corporativista conservadora e retrógrada das escolas e seus agentes. Aí o bicho pega….
Foi sobre isso, sobre civilidade, que o Congresso Estadual sobre Desenvolvimento e Educação no Trânsito tratou, realizando-se sobre os ombros de nossa Marília. Tentamos trazer a Semana de Arte Moderna, aquela de “22” (do século passado), para relembrarmos que não basta uma idéia na cabeça e uma câmera na mão.
Reginaldo Arthus, Economista, Mestre em Economia pela UNICAMP, é docente do UNIVEM