É de espantar a distância descabida entre o dizer e o fazer, o discurso e a prática, aquela velha máxima de faça o que eu falo, não faça o que eu faço, bem próprio do mundo político partidário.
No caso de Marília uma aberração tomou conta especialmente do espectro de malfeitores que se proclamam donos do poder e não como sujeitos transitórios na representação democrática e participativa.
Pesquisei dados filosóficos e mais letrados sobre a distância que existe entre discurso e prática e descobri um artigo ou capítulo de livro exatamente sobre o tema – “A divergência entre o discurso e a prática”, de Amnéris Ângela Maroni.
Primor de texto que vou reproduzir em parte e tomar a liberdade deaduzir alguns dados do cotidiano daqui para que possamos analisar comportamentos nossos e óbvio, principalmente questionar posturas dos políticos de Marília.
A autora Amnéris Maronié doutora em Ciências Sociais (PUC – SP) e professora na Unicamp, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e Departamento de Ciência Política.
Entre obras, livros e trabalhos incontáveis, é autora de: A estratégia da recusa (1983); Jung o poeta da alma. (1998. 2ª edição/2004); Individuação e Coletividade (1998); “Divergências entre o fazer e o dizer”, in O Dragão e a Borboleta (2000); Figuras da Imaginação (buscando compreender a psiquê) (2001).
“A fissura entre o dizer e o fazer permeia toda a sociedade moderna: presente na família, na escola, na política, nas organizações. Ninguém escapa dela e, todavia, por ser sutil,também ninguém reflete sobre ela”, defende a doutora.
Ou seja, todos nós estamos acessíveis no dia-a-dia a cometer esse auto-engano, não deixe de pensar então nos homens públicos, principalmente esses que nos enganaram durante os últimos 20 anos em Marília.
Diz a doutora: “o conhecido ‘faz-de-conta’, que talvez seja uma das mais significativas, embora não assumida, instituições da sociedade moderna. As escolas fazem de conta que dão cursos relevantes, os alunos, com o reforço de seus familiares e da sociedade em geral, fazem de conta que fizeram cursos relevantes em escolas relevantes; os funcionários fazem de conta que estão trabalhando a serviço dos clientes, mesmo que os processos e instrumentos de trabalho que estejam usando dêem ênfase à performance da empresa. Todo mundo hoje em dia parece fazer de conta: eu faço de conta que trabalho, você faz de conta que me paga, eu faço de conta que atendo o meu cliente, o cliente faz de conta que é atendido. E assim por diante. Quando, por ventura, alguém não quer mais brincar de fazer de conta, há uma espécie de curto-circuito do sistema – e sua irracionalidade vem à tona.”
Infelizmente assim nos sentimos sempre quando resolvemos analisar mais detidamente nossas posturas e o que é ainda pior, esse jornalista tem sido esse peso nos últimos anos: basta resolver romper esse “faz de conta” que então vamos ser taxados de irracionais.
Decidi transformar o jornalismo investigativo e pluralista em instrumento de cruzada para defesa dos interesses coletivos com ênfase e enfoque que rompem esse faz de conta. Os incomodados malfeitores do poder constituído e do crime organizado gostam de carimbar: esse profissional é louco, irresponsável.
Ora, é o contrário, chega de hipocrisia. Os mandatários e poderosos de Marília fazem discursos baratos, de enganação, bem distantes e distorcidos em relação às boas práticas de comportamento, costumes, gestão e respeito às coisas, causas e humanização das relações.
É parca a consciência sobre a distância entre sua fala e sua ação. Voltando a Amnéris Maroni: “Por que esse problema se põe com tanta volúpia em todas as esferas do social? Talvez porque a velocidade seja uma das marcas mais características das sociedades modernas. O mundo, as relações, os papéis transformam-se incessantemente; o tempo reflexivo necessário para que tais transformações possam ser assimiladas e assumidas conscientemente é quase nenhum. O jeito é aderir ao “politicamente correto”: os pais sabem que é politicamente correto dialogar com os filhos e dizem que assim agem – embora não raro contratem detetives para saber se os seus filhos estão se envolvendo com drogados, desconfiem e rebusquem as suas gavetas. O professor sindicalizado, atuante e com grande consciência de cidadania sabe que é politicamente correto dialogar com os seus alunos e afirma que assim age; comumente, porém, notas e controle da presença continuam a ser instrumentos eficazes para calar qualquer senão. O político sabe que é politicamente correto agir em nome da ética; a corrupção, entretanto, nunca foi tão expressiva e tão declarada. Mesmo diante de fortes evidências, sempre prevalecem os mecanismos de proteção social erigidos para os que parecem mas não são.”
A doutora tem ou não razão? Pare a leitura e faça cinco minutos de reflexão para depois continuar.
“Enfim, a fissura entre o dizer e o fazer, que não faz senão alargar-se perigosamente, explica-se em parte se considerarmos as transformações alucinantes -inclusive no plano das emoções- pelas quais a sociedade está passando. Elas são de toda a ordem, explicitando-se particularmente no plano da política com a ampliação de direitos e de práticas democráticas que impõem determinadas falas e condutas e, todavia, o sujeito é ainda o velho sujeito que reage emocionalmente à “maneira antiga” quando as questões são mais concretas e a ele diretamente relacionadas…
Para resumir: “Não basta então a definição da missão e do código de conduta. Isso é muito pouco, tanto para as expectativas das pessoas como para as expectativas das empresas. É preciso desenvolver ainda uma postura de acolhimento para novas possibilidades criativas; é preciso que nós, as pessoas, possamos re-inventar permanentemente o nosso trabalho, construir a trajetória do que nos propomos a realizar juntos, amadurecer um sentido de responsabilidade para com o outro e para com o coletivo. Esse, de fato, é o ambiente que interessa a todos.”
Ainda sobre essa reflexão, leia resumos de textos abaixo que dão continuidade ao assunto, da doutora Amnéri Maroni:
Diálogo e alteridade
“O fetiche das palavras é algo muito mais poderoso do que imaginamos. Falamos de participação, democracia, liberdade, criatividade nas organizações e, passo seguinte, acreditamos que o mundo se cria pela palavra. Ora, a palavra é um signo arbitrário, mas que pode ser muito sedutor e, ao seduzir, seduz não só ao outro que me ouve; pior, seduz a mim mesmo, que falo..
“Mas há também o lado redentor da palavra. O diálogo pode se tornar o fator revolucionário de toda e qualquer organização social. Talvez, exatamente por isto, o diálogo é tão difícil, tão absolutamente raro. O diálogo é uma arte, infelizmente limitada a círculos restritos da sociedade. Isso é muito curioso porque a sociedade moderna tagarela intensamente. Mas tagarelar não é dialogar. Em geral, as pessoas falam de coisas absolutamente acidentais e exteriores; quem fornece os temas de discussão são os meios de comunicação, o maquinário com o qual trabalho ou o manual de instruções do novo Windows 2001! Ou melhor, o problema não é propriamente o tema da conversa, mas o quanto estou dissociado daquilo que falo: o ser profissional dissociado do ser social, dissociado das emoções, das experiências e por aí vai.
“Dialogar é conviver com o conflito, geri-lo, e não, como é usual, reprimi-lo, paralisá-lo, escondê-lo.
“Vou dar um exemplo muito freqüente do diálogo -ou da ausência dele- no processo terapêutico. Aliás, aprendi a valorizar o diálogo e ver nele uma potencialidade revolucionária como psicoterapeuta. No processo terapêutico o diálogo é peculiar e, todavia, acredito que tenha aí o seu paradigma. Tão velho quanto a dialética socrática, o diálogo terapêutico re-inaugura uma prática esquecida. Não raro, uma criança adoece porque a família também está doente. Uma das práticas terapêuticas comuns nesses casos é pedir para a família conversar durante 15 minutos semanalmente. O diálogo que no início se limita à expressão do desejo de cada um, pode demorar meses para se tornar uma prática durante 15 minutos por semana! Simplesmente as pessoas não têm o hábito de se ouvirem e, coisa mais rara ainda, de responderem àquilo que foi perguntado. Hoje, temos monólogos; as pessoas moram juntas por anos a fio na mais radical solidão.
“A fissura entre o dizer e o fazer, através do diálogo poderia ganhar outras dimensões, porque se o diálogo efetivamente se estabelece, acontece um fenômeno revolucionário: começamos a perceber o outro como outro, as máscaras sociais caem, a verdade pontual a respeito de um problema, pouco a pouco, aparece.
“A revolução, no meu entender, é dialógica e pontual. Não há remédio-macro que dê conta da nossa realidade social. Se nos voltarmos, porém, para o micro, o pontual, o pequeno, o sutil -na família, na escola, nas organizações em geral- será possível obter importantes resultados, pois quando de fato há diálogo, as pessoas tornam-se criativas porque colocam sobre a mesa quem elas realmente são (seus sentimentos, seus desejos, suas capacidades de realização, suas necessidades de expressão). Na ausência do diálogo autêntico, as pessoas são artificiais, vivenciam papéis estereotipados, repetitivos, absolutamente não criativos.
“Vivenciam profunda solidão, sentem-se despersonalizadas e massacradas por um mecanismo gigantesco onde cada uma é peça intercambiável.
“Pense, leitor, em como você é bem mais do que uma peça amorfa para que assim seja considerado.
“Esta proposta que estou fazendo, de aprender a dialogar -e de exercer o diálogo- é muito simples. Não implica custos que não possam ser absorvidos, e pode vir a se tornar uma prática realmente transformadora das relações, em direção àquilo que todos almejamos: a sua autenticidade. Quando nos abrimos para o diálogo, quando fazemos esse gesto supremo, passamos a ter outra referência de nós mesmos e do outro, passamos a sentir a dor, o sofrimento e a solidão do outro.
As máscaras sociais
“Outra fissura importante da sociedade moderna se dá entre o fazer e o ser. O ser e o fazer dissociados. O dizer e o fazer dissociados. Todas essas dissociações fundam-se a partir da fissura entre o ser e o parecer. Jean-Jacques Rousseau teceu essa argumentação no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, no início da segunda metade do século XVIII.
“É essa fissura entre o ser e o parecer que permitiu ao filósofo um olhar crítico sobre a modernidade no seu alvorecer. Explicando um pouco: se tivermos como referência as sociedades tradicionais e a própria cultura ocidental até o início da modernidade, percebemos que as pessoas tinham lugares muito definidos na “cadeia do Ser”; o que elas deveriam fazer e, inclusive, falar, estava dado.
“A fissura entre o que eu sou e o que aparento ser simplesmente não se punha, não tinha sentido e, com ela, também não tinha sentido a fissura entre o dizer e o fazer e a fissura entre o ser e o fazer. Essa fissura, no entender de Rousseau, só fez alargar-se. Talvez tenhamos chegado ao seu ponto culminante, pois aquilo que somos -quando sabemos quem somos- escondemos, diminuímos, espezinhamos; só é permitida a emergência do aparecer, das máscaras, daquilo que Jung chama de persona.
“As máscaras nos permitem realizar no social um pequeno fragmento do nosso ser – o restante permanece atrofiado, reprimido e, muitas vezes, como o sangrento século XX provou, pronto a emergir de forma sombria, projetada nos “bodes expiatórios” sociais. Sem caminhos, os “melancólicos da cultura” sabem que perderam algo: partes importantes do ser; mas não sabem nomear o que perderam. Como seres errantes, passam a identificar-se com suas máscaras sociais.
“O parecer agiganta-se, o ser atrofia-se. O homem confunde-se com o papel social que realiza, com os penduricalhos sociais (títulos, cargos etc.) que as organizações lhe permitem ter, tornando-se cada vez mais frágil, inseguro, instável. Obviamente não há possibilidade de uma sociedade saudável com um abismo tão grande entre o ser e o parecer, entre o dizer e o fazer, entre o ser e o fazer.
“É preciso que haja uma nova recomposição do ser. O diálogo, de novo, poderia ser o elemento fundamental de recomposição do ser dissociado de si mesmo.”
A re-descoberta
do outro
“Para Rousseau, o ‘homem natural’ é dotado de duas paixões: o amor de si e a pitié (a compaixão). O amor de si é o cuidado consigo mesmo e tudo aquilo que garante a sobrevivência do homem; a pitié é uma paixão que nos transporta para o outro, todos os outros, pois através dela nos é impossível ficar indiferentes diante daquele que sofre.
“A pitié tempera o amor de si, impedindo que se transforme em amor-próprio, que, para o filósofo, é uma paixão social que transforma o homem num ser egoísta, voltado para os seus interesses pessoais. Ora, o processo civilizatório enfraqueceu sobremaneira a pitié: convivemos com a miséria, a iniqüidade, a desigualdade social extrema, a morte e a destruição e permanecemos completamente indiferentes. O outro na sociedade moderna deixou de nos fazer apelos.
“E, todavia, há ‘perigo no ar’: catástrofes naturais produzidas pelo desequilíbrio ecológico; catástrofes sociais e políticas produzidas pelo desequilíbrio da alma; catástrofes que podem ser produzidas pela própria ciência quando esta separa-se da ética. É responsabilidade de cada um de nós, mas também das Instituições, mudar a direção da seta: da catástrofe para a esperança de um mundo que re-conhece e venera Eros. Agir no pequeno, no pontual, permite a todos exercer-se aqui e agora ancorados no diálogo e no coração: não existe arma mais eficaz do que trazer à tona o outro e a si mesmo.”
rn