• 26 out 2008 /  Fique Ligado

    Tudo tão lindo no Brasil e no Canadá, tudo tão promissor e tudo tão antagônico. Cultura? Em partes. Falta mesmo é vergonha, seriedade, legalidade e humanizar as relações quando se compara o pobre Brasil com o Canadá.

    Fiquei quatro dias no Canadá, dois andando e voando de um lado a outro entre cidades e aeroportos. Para ocupar tempo observei detalhes além de aprender coisas novas e bons papos.

    Da vida pacata, colorida e florida do canadense ao inferno que é a sobrevivência em grande parte do Brasil e a catástrofe aqui pode ser medida pelo comovente caso Eloá.

    Cheguei ao Brasil no último dia do caso e lá estavam brasileiros atônicos e chocados com o desfecho.

    A morte de Eloá é a gravidade factual que entristece corações, evidencia o bárbaro despreparo da instituição Polícia e expõe o quanto a vida está desregrada.

    A menina bonita, cheia de graça e carismática pelo que as reportagens desenharam foi morta não fundamentalmente pelas balas que a atingiram.

    Ela é vítima também do país subdesenvolvido, onde menina de 15 anos tem pais que precisam trabalhar e dão autonomia superior às reais responsabilidades próprias da idade.

    A tragédia que abateu aquela família mostra agora o pai de Eloá, um foragido da Justiça, acusado de integrar grupo de matadores no Ceará.

    Esse é o perfil de boa parte de famílias brasileiras onde falta estrutura econômica-social.

    Crianças, adolescentes e jovens estão à solta longe quase sempre de condições básicas de saúde, educação, habitação, imagine então cultura e lazer. Longe dos olhos e orientações essenciais dos pais.

    Fica aqui alerta para classe média e aos ricos: não é só os filhos das periferias e dos pobres que estão meio que largados na formação e por conta do mundo.

    Filhinhos de papais, mauricinhos e patricinhas, às vezes estão na mesma condição de abandono e não é demais lembrar aqui caso emblemático da filha do casal Richthoffen.

    A instantaneidade das mídias especialmente das televisões tem exposto e tocado fundo na emoção e comoção nacional e os casos policiais viveram a sensacionalista cobertura.

    É essencial mostrar os casos, pena que a lição seja esquecida logo e outros casos do dia nos fazem esquecer os anteriores.

    Há conjunto de fatores que nos servem de reflexão e lição. Repito: o primeiro deles é olharmos para dentro de nossas casas, prestarmos mais atenção aos nossos filhos, como eles se desenvolvem, se comportam, se relacionam dentro e fora de casa.

    Me confesso preocupado com o dia-a-dia que às vezes me faz ausente de convivência e esse é problema de maioria de pais hoje em dia.

    Não presença física e quantidade. Qualidade de apoio e acompanhamento, pois somos sim responsáveis pela vida dos filhos e por mais evoluído que o mundo esteja e a precocidade de comportamentos por conta do volume de informações, cada idade deve ser respeitada, na criança, adolescente e jovem, pois a experiência acumulada é que vai assegurar seres autônomos no futuro e aí sim sem tanta dependência de pais.

    Não devemos apenas ficar no horror do factual porque daqui a pouco as tragédias do cotidiano vão nos deixar acostumados do mesmo jeito que hoje já não mais espanta os escândalos de corrupção dos políticos e na administração pública.

    Não podemos perder a capacidade de nos indignarmos com os pequenos ou grandes problemas e sacanagens.

    Não podemos deixar de tirar lição das tragédias e buscar reflexão que vá além da conseqüência. Senão estaremos cada vez mais distantes de identificar as causas.

    Essa questão cultural e de estrutura moral e ética das famílias é da conta das individualidades, mas o Estado brasileiro é o grande culpado, pois, pagamentos em impostos não voltam em serviços essenciais para melhorar a vida da sociedade de forma mais igualitária.

    De novo cito o Canadá que conheci agora e onde a carga tributária é tão pesada como no Brasil. Diferença é que lá não tem tanto bandido na política, tanto ladrão administrando o dinheiro do povo.

    No Canadá o cidadão é multado até se não manter o jardim florido em casa, as árvores podadas, assim como todos pagam taxas e impostos que garantam necessidades básicas e, educação até a universidade, por exemplo, de primeiro mundo, é bancada pelo governo.

    Nos quatro dias que estive em várias cidades canadenses só vi nas ruas dois andarilhos maltrapilhos. Quando a polícia os localiza, toma as providências de encaminhamento.

    Vi um homem sendo preso na frente de shopping Center em Toronto. Viaturas, motos, oito policiais… Revistaram, conversaram e levaram educadamente o cidadão, que acabou sendo encaminhado à delegacia e não sei mais o que teria acontecido.

    O certo é que a cena rápida evidencia o quanto o cidadão respeita a polícia e o quanto a polícia está preparada para dar segurança e cuidar dos interesses da população.

    Diferença daqui. Policiais despreparados, mal pagos, à míngua e sem possibilidade de ter direitos assegurados para profissão tão essencial.

    Basta dizer que um soldado ou cabo, investigador ou agente, civil ou militar em São Paulo não ganha nem cinco salários mínimos ou dois mil reais mensais.

    Pior ainda é que o Estado é incompetente e não dá condições de preparo aos policiais e seus departamentos, bem diferente do que acontece no Canadá e nos demais países civilizados e éticos.

    Volto então ao caso de seqüestro e morte de Eloá. O que assistimos na televisão da atuação do GATE e da Polícia Militar é sim de dar vergonha, um descalabro e despreparo que esperamos ser localizados.

    Como pode a polícia do maior e mais desenvolvido estado brasileiro dar ao vivo umshow de amadorismo e inconseqüência de tamanha dimensão?

    Sem comando, sem estrutura, sem saber como conduzir a situação, a tragédia teve desfecho diferente do que poderia ocorrer caso a polícia tivesse agido mais rápido e de forma eficiente.

    Não é culpa dos policiais, mas da instituição, do Estado que não tem uma tropa ou grupo de elite capaz de lidar com um caso grave, mas que não foi nenhuma situação de outro mundo.

    Se a polícia de São Paulo não tem preparo para lidar com um jovem que está surtado e fez duas jovens de reféns, imagine quando tivermos uma situação mais grave, de bandidos de alta periculosidade, seqüestrando mais gente e em local maior. Vai ser a calamidade, o fim do mundo?

    Lindemberg Fernandes Alves manteve Eloá Cristina Pimentel e Nayara Rodrigues da Silva sob seus caprichos por uma semana e uma polícia patética conversando, conversando, sem nada produzir.

    Um final trágico pode ser sempre esperado nessas situações. Ao final, o que ficou patente é que presumia-se existir um comando, mas a invasão ocorreu sem ordem de ninguém.

    Outra bestialidade e incompetência: a polícia sem nenhuma responsabilidade permitiu o retorno da menina Nayara ao cativeiro.

    A polícia não poderia ter permitido o retorno dela ao cativeiro.

    Carlos Félix de Oliveira, o comandante, até pareceu um papagaio depois do desfecho do caso e não cansou de dar entrevista, ordem para a invasão não deu.

    A polícia ficou enrolada e enrolando o tempo todo e quando invadiu o cativeiro, o fez de forma incorreta, indevida e sem nenhum preparo. Lastimável, as cenas da explosão, de cinco ou seis policiais se atropelando para entrar no apartamento em longos segundos para dominar o seqüestrador, as cenas patéticas de agressões gratuitas.

    A vida das meninas ficou todo tempo sob riscos até que o pior aconteceu com Eloá e policiais saíram declarando que a negociação tentava evitar mortes.

    Nenhum gênio do comando da polícia pensou em chamar a mãe do seqüestrador, colocá-la na linha de frente, fazer com que ela o comovesse? Até porque ele era um rapaz aparentemente tranqüilo e buscava a mãe todos os dias no trabalho.

    De outro lado, quem infelizmente colocou todos em risco foi Lindemberg e só a vida dele poderia ter sido assim tratada pela polícia. Não foi isso o que ocorreu.

    Se a polícia fosse preparada como em países desenvolvidos e que tratam a polícia e seus policiais com respeito e capacitação, em tempo hábil o que se teria seria a instituição atirando num seqüestrador, com vistas a salvar a vida de sua vítima.

    Quem tem o dever de fazer, apenas deve fazer e como deve ser feito. Então pela ordem, o primeiro culpado da tragédia é sim o seqüestrador, mas igualmente a polícia, a instituição.

    Há também outros culpados, talvez os maiores: as autoridades, que deveriam falar quais as ações para evitar tantas tragédias. Omitem-se e não são cobradas por ninguém.

    Cadê o presidente da República e o governador de São Paulo e as manifestações deles? São useiros e vezeiros como todo político e maioria de homens públicos de palpitar sobre isso e aquilo. Bem, quando eles têm interesse.

    Não é que eles devam falar como papagaios sobre tudo. Estamos cobrando a necessária reflexão, verificar erros das instituições, aproveitarmos a lição para que as autoridades tomem medidas rápidas, por exemplo, para melhorar a capacitação dos policiais.

    No caso de São Paulo então, onde a Polícia Civil está em greve por falta de salários dignos e condições de trabalho, a hora é mais emergencial ainda.

    Só assim quem sabe teremos as tragédias como em todo lugar do mundo, mas com uma sociedade mais bem guardada pelas suas polícias, suas instituições, seu Estado.

    Só uma questão de aplicar bem o que pagamos, como ocorre no Canadá e em países com homens públicos menos idiotas e menos corruptos.

    rn

  • 12 out 2008 /  Fique Ligado

    Fiz o que tinha que ser feito.

    Estou com único sentimento: do dever cumprido.

    Fosse um processo limpo a disputa eleitoral não teria retoques na condução ou resultado. Afinal, ao lixo as idéias. Máquina pública, dinheiro de caixa dois e o marketing dominam.

    A sociedade perde.

    Generalizada a política partidária e legislação eleitoral precisa de reforma, todo mundo sabe.

    Onde inexiste debate como em Marília, a tendência de distorção da disputa é algo notório e a falta de espaço em tevê e de espaços públicos esconde a cara nua e crua dos candidatos e maquia posições e projetos.

    Liguei para Mário Bulgareli no dia cinco às 19h quando as urnas indicaram certeza que ele venceu as eleições e essa foi a postura para que eu pudesse finalizar minha participação e selar reconhecimento ao fim do processo eleitoral.

    A legitimidade da vitória por conta da escolha democrática segundo a legalidade não me impede de ser como sempre, crítico e coerente com minha convicção, de ativista e jornalista investigativo.

    O processo é distorcido e não apenas por conta da legislação eleitoral e ineficiente sistema de fiscalização das instituições.

    Marília é pobre em histórico de participação da sociedade civil em qualquer debate. Intelectualidade e lideranças, as mais diversas, são incoerentes e às vezes hipócritas quando minimamente se inserem na defesa de causas públicas e coletivas.

    Não é sem motivo contraponto: a cidade nova e tão rica em desenvolvimento material e empreendimento é tão pobre em idéias e projetos sociais.

    Ao contrário dos nordestinos que já se livraram de coronéis, aqui estamos ainda nesse debate chulo para enterrar o espectro caquético de Abelardo Camarinha.

    Não confio que esse espectro frankstein montado por Mário Bulgareli que o reelegeu possa romper essa precariedade da política administrativa da cidade.

    Como defendo a melhoria das relações, o bem comum e coletivo, não vamos ser empecilho para eventuais avanços e que essa transição defendida por alguns segmentos possa ser concretizada.

    O que não representa que nossa causa vai ficar aliada ou alinhada aos propósitos de quem venceu a eleição como se fosse outro pensamento único e verdade absoluta.

    O sentimento do dever cumprido encerra uma jornada. O processo de cidadania e liberdades plenas deve ser uma luta constante de conquistas à sociedade.

    Aproveitadores de plantão, hipócritas por interesses, despreparados por essência e objetivos podem estar juntos e querendo enterrar tudo que foi conquistado até agora quando desvendamos boa parte das entranhas dos podres poderes de Marília.

    Não podemos correr riscos. A festiva, oba-oba, a postura espalhafatosa de quem faz da vitória das eleições desfile e exibição são atitudes efêmeras.

    Chega de trancar esqueletos de corrupção no armário, botar debaixo do tapete a sujeira dos desvios, e esconder nos escombros a roubalheira em obras superfaturadas de hoje e principalmente do passado recente.

    O atual mandato de Mário Bulgareli termina 31 de dezembro. Está em débito com a sociedade, a reeleição não é carta de alforria ou salvo conduto para quem até hoje esconde uma série de desmandos e acordos suspeitos de fraude e benefícios próprios do criador Abelardo Camarinha.

    O prefeito não disse ao que veio exceto na campanha eleitoral quando abriu as burras da prefeitura para criar clima favorável à sua candidatura.

    No resto foi quase serviçal do espectro abelardiano e lambe saco de Vinícius até quase ontem e não abriu o bico para explicar o endividamento milionário que herdou embora tivesse sempre conhecimento, assim como dos desmandos do antecessor que lhe serviu e elegeu.

    Mas nos próximos quatro anos – e olha que é muito tempo – Mário Bulgareli vai ser prefeito com apoio de outra gente, como parte da oposição oportunista, que passou a vida inteira querendo chegar ao poder e o fez pela porta dos fundos.

    O que todo mundo pergunta: ele vai ter recaída ao esquema abelardiano ou vai colocar na rua o resto da cambada que infesta cargos e posições na administração e cumprir o mínimo de compromissos que assumiu.

    É preciso abrir a caixa preta da administração pública de Marília, retroagir nesses 12 anos para que possa ter identificação do tamanho do rombo e do roubo perpetrado. Parte está distribuída em centenas de processos, ações e procedimentos cíveis, criminais e administrativos, pelo Fórum, Tribunais e outros.

    Difícil esperar que haja tanta coerência e lapso de lisura e transparência em relação a esse passado ao qual na verdade todos pertenceram, seja ele Mário Bulgareli ou apoiadores.

    É por isso que nossa causa continua, não fizemos acordos, não desviamos nosso caminho, vamos continuar não o jornalismo investigativo mas o ativismo para desmascarar tanta falcatrua e evitar que tudo continue sempre escondido dos olhos, ouvidos e sabedoria da sociedade.

    É bem verdade o que o jornalista Guto Pereira escreveu essa semana na coluna Colírios e Cotonetes: “Bulgareli e seu frankstein apenas ganharam a eleição por causa do poder da máquina e gastando milhões. Uma vitória sem cara.”

    É por isso que há outra verdade: a oposição tem cara e a defesa da mudança vai continuar. A nossa causa é que defendemos lisura, ética, transparência, efetiva participação da sociedade nos destinos e aplicação dos recursos públicos.

    A causa continua.

    Deixo de ser candidato, volto a atuar como jornalista e radialista, cidadão com convicção e fé de uma cidade melhor, sociedade pluralista e liberdades.

    Agradeço a Deus pelos caminhos que continuo trilhando, ao apoio da família, a integração dos amigos, à força dos aliados, à dedicação dos contratados e respeito e devoção aos milhares e milhares de voluntáriose defensores e à população, especialmente a cada um dos 15. 379 eleitores que votaram em nosso plano de governo, em nossa causa.

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