Tudo tão lindo no Brasil e no Canadá, tudo tão promissor e tudo tão antagônico. Cultura? Em partes. Falta mesmo é vergonha, seriedade, legalidade e humanizar as relações quando se compara o pobre Brasil com o Canadá.
Fiquei quatro dias no Canadá, dois andando e voando de um lado a outro entre cidades e aeroportos. Para ocupar tempo observei detalhes além de aprender coisas novas e bons papos.
Da vida pacata, colorida e florida do canadense ao inferno que é a sobrevivência em grande parte do Brasil e a catástrofe aqui pode ser medida pelo comovente caso Eloá.
Cheguei ao Brasil no último dia do caso e lá estavam brasileiros atônicos e chocados com o desfecho.
A morte de Eloá é a gravidade factual que entristece corações, evidencia o bárbaro despreparo da instituição Polícia e expõe o quanto a vida está desregrada.
A menina bonita, cheia de graça e carismática pelo que as reportagens desenharam foi morta não fundamentalmente pelas balas que a atingiram.
Ela é vítima também do país subdesenvolvido, onde menina de 15 anos tem pais que precisam trabalhar e dão autonomia superior às reais responsabilidades próprias da idade.
A tragédia que abateu aquela família mostra agora o pai de Eloá, um foragido da Justiça, acusado de integrar grupo de matadores no Ceará.
Esse é o perfil de boa parte de famílias brasileiras onde falta estrutura econômica-social.
Crianças, adolescentes e jovens estão à solta longe quase sempre de condições básicas de saúde, educação, habitação, imagine então cultura e lazer. Longe dos olhos e orientações essenciais dos pais.
Fica aqui alerta para classe média e aos ricos: não é só os filhos das periferias e dos pobres que estão meio que largados na formação e por conta do mundo.
Filhinhos de papais, mauricinhos e patricinhas, às vezes estão na mesma condição de abandono e não é demais lembrar aqui caso emblemático da filha do casal Richthoffen.
A instantaneidade das mídias especialmente das televisões tem exposto e tocado fundo na emoção e comoção nacional e os casos policiais viveram a sensacionalista cobertura.
É essencial mostrar os casos, pena que a lição seja esquecida logo e outros casos do dia nos fazem esquecer os anteriores.
Há conjunto de fatores que nos servem de reflexão e lição. Repito: o primeiro deles é olharmos para dentro de nossas casas, prestarmos mais atenção aos nossos filhos, como eles se desenvolvem, se comportam, se relacionam dentro e fora de casa.
Me confesso preocupado com o dia-a-dia que às vezes me faz ausente de convivência e esse é problema de maioria de pais hoje em dia.
Não presença física e quantidade. Qualidade de apoio e acompanhamento, pois somos sim responsáveis pela vida dos filhos e por mais evoluído que o mundo esteja e a precocidade de comportamentos por conta do volume de informações, cada idade deve ser respeitada, na criança, adolescente e jovem, pois a experiência acumulada é que vai assegurar seres autônomos no futuro e aí sim sem tanta dependência de pais.
Não devemos apenas ficar no horror do factual porque daqui a pouco as tragédias do cotidiano vão nos deixar acostumados do mesmo jeito que hoje já não mais espanta os escândalos de corrupção dos políticos e na administração pública.
Não podemos perder a capacidade de nos indignarmos com os pequenos ou grandes problemas e sacanagens.
Não podemos deixar de tirar lição das tragédias e buscar reflexão que vá além da conseqüência. Senão estaremos cada vez mais distantes de identificar as causas.
Essa questão cultural e de estrutura moral e ética das famílias é da conta das individualidades, mas o Estado brasileiro é o grande culpado, pois, pagamentos em impostos não voltam em serviços essenciais para melhorar a vida da sociedade de forma mais igualitária.
De novo cito o Canadá que conheci agora e onde a carga tributária é tão pesada como no Brasil. Diferença é que lá não tem tanto bandido na política, tanto ladrão administrando o dinheiro do povo.
No Canadá o cidadão é multado até se não manter o jardim florido em casa, as árvores podadas, assim como todos pagam taxas e impostos que garantam necessidades básicas e, educação até a universidade, por exemplo, de primeiro mundo, é bancada pelo governo.
Nos quatro dias que estive em várias cidades canadenses só vi nas ruas dois andarilhos maltrapilhos. Quando a polícia os localiza, toma as providências de encaminhamento.
Vi um homem sendo preso na frente de shopping Center em Toronto. Viaturas, motos, oito policiais… Revistaram, conversaram e levaram educadamente o cidadão, que acabou sendo encaminhado à delegacia e não sei mais o que teria acontecido.
O certo é que a cena rápida evidencia o quanto o cidadão respeita a polícia e o quanto a polícia está preparada para dar segurança e cuidar dos interesses da população.
Diferença daqui. Policiais despreparados, mal pagos, à míngua e sem possibilidade de ter direitos assegurados para profissão tão essencial.
Basta dizer que um soldado ou cabo, investigador ou agente, civil ou militar em São Paulo não ganha nem cinco salários mínimos ou dois mil reais mensais.
Pior ainda é que o Estado é incompetente e não dá condições de preparo aos policiais e seus departamentos, bem diferente do que acontece no Canadá e nos demais países civilizados e éticos.
Volto então ao caso de seqüestro e morte de Eloá. O que assistimos na televisão da atuação do GATE e da Polícia Militar é sim de dar vergonha, um descalabro e despreparo que esperamos ser localizados.
Como pode a polícia do maior e mais desenvolvido estado brasileiro dar ao vivo umshow de amadorismo e inconseqüência de tamanha dimensão?
Sem comando, sem estrutura, sem saber como conduzir a situação, a tragédia teve desfecho diferente do que poderia ocorrer caso a polícia tivesse agido mais rápido e de forma eficiente.
Não é culpa dos policiais, mas da instituição, do Estado que não tem uma tropa ou grupo de elite capaz de lidar com um caso grave, mas que não foi nenhuma situação de outro mundo.
Se a polícia de São Paulo não tem preparo para lidar com um jovem que está surtado e fez duas jovens de reféns, imagine quando tivermos uma situação mais grave, de bandidos de alta periculosidade, seqüestrando mais gente e em local maior. Vai ser a calamidade, o fim do mundo?
Lindemberg Fernandes Alves manteve Eloá Cristina Pimentel e Nayara Rodrigues da Silva sob seus caprichos por uma semana e uma polícia patética conversando, conversando, sem nada produzir.
Um final trágico pode ser sempre esperado nessas situações. Ao final, o que ficou patente é que presumia-se existir um comando, mas a invasão ocorreu sem ordem de ninguém.
Outra bestialidade e incompetência: a polícia sem nenhuma responsabilidade permitiu o retorno da menina Nayara ao cativeiro.
A polícia não poderia ter permitido o retorno dela ao cativeiro.
Carlos Félix de Oliveira, o comandante, até pareceu um papagaio depois do desfecho do caso e não cansou de dar entrevista, ordem para a invasão não deu.
A polícia ficou enrolada e enrolando o tempo todo e quando invadiu o cativeiro, o fez de forma incorreta, indevida e sem nenhum preparo. Lastimável, as cenas da explosão, de cinco ou seis policiais se atropelando para entrar no apartamento em longos segundos para dominar o seqüestrador, as cenas patéticas de agressões gratuitas.
A vida das meninas ficou todo tempo sob riscos até que o pior aconteceu com Eloá e policiais saíram declarando que a negociação tentava evitar mortes.
Nenhum gênio do comando da polícia pensou em chamar a mãe do seqüestrador, colocá-la na linha de frente, fazer com que ela o comovesse? Até porque ele era um rapaz aparentemente tranqüilo e buscava a mãe todos os dias no trabalho.
De outro lado, quem infelizmente colocou todos em risco foi Lindemberg e só a vida dele poderia ter sido assim tratada pela polícia. Não foi isso o que ocorreu.
Se a polícia fosse preparada como em países desenvolvidos e que tratam a polícia e seus policiais com respeito e capacitação, em tempo hábil o que se teria seria a instituição atirando num seqüestrador, com vistas a salvar a vida de sua vítima.
Quem tem o dever de fazer, apenas deve fazer e como deve ser feito. Então pela ordem, o primeiro culpado da tragédia é sim o seqüestrador, mas igualmente a polícia, a instituição.
Há também outros culpados, talvez os maiores: as autoridades, que deveriam falar quais as ações para evitar tantas tragédias. Omitem-se e não são cobradas por ninguém.
Cadê o presidente da República e o governador de São Paulo e as manifestações deles? São useiros e vezeiros como todo político e maioria de homens públicos de palpitar sobre isso e aquilo. Bem, quando eles têm interesse.
Não é que eles devam falar como papagaios sobre tudo. Estamos cobrando a necessária reflexão, verificar erros das instituições, aproveitarmos a lição para que as autoridades tomem medidas rápidas, por exemplo, para melhorar a capacitação dos policiais.
No caso de São Paulo então, onde a Polícia Civil está em greve por falta de salários dignos e condições de trabalho, a hora é mais emergencial ainda.
Só assim quem sabe teremos as tragédias como em todo lugar do mundo, mas com uma sociedade mais bem guardada pelas suas polícias, suas instituições, seu Estado.
Só uma questão de aplicar bem o que pagamos, como ocorre no Canadá e em países com homens públicos menos idiotas e menos corruptos.
rn